Empresa de identidade digital diz que sua tecnologia de reconhecimento facial foi desviada por um canal exclusivo do Banco do Brasil. Perícia aponta 1,4 milhão de transações irregulares — e até 22 milhões de brasileiros potencialmente afetados.
A Unico, uma das principais empresas brasileiras de identidade digital e biometria facial, acusa a Serasa Experian de orquestrar o que descreve como o maior roubo de dados biométricos já registrado no país. O caso, revelado pelo Valor Econômico, já produziu um desdobramento concreto: na quarta-feira (10/06), peritos criminais cumpriram um mandado de busca e apreensão contra a Serasa, em São Paulo. A empresa nega todas as acusações.
A disputa coloca frente a frente dois nomes de peso do setor de dados. A Serasa Experian é conhecida pela análise de crédito, pelo “score” e pela prevenção a fraudes. A Unico, por sua vez, usa reconhecimento facial e inteligência artificial para validar identidades em tempo real, protegendo cadastros e transações de bancos, e-commerces e aplicativos contra fraudes e deepfakes. É justamente essa base de imagens faciais — e não dados bancários — que estaria no centro do conflito.
A acusação
Especializada em autenticação biométrica, a Unico abriu ações nas esferas criminal e cível, em um processo que corre em segredo de justiça. A empresa sustenta que a Serasa e a ClearSale, controlada pelo grupo, teriam montado um esquema para acessar indevidamente sua tecnologia de autenticação e, com isso, abastecer seus próprios bancos de dados. A intermediação teria sido feita por uma terceira empresa, a Skill Tecnologia.
Como o esquema teria funcionado
Segundo a acusação, a Skill possuía contrato para utilizar o software de biometria da Unico exclusivamente em nome do Banco do Brasil. Na prática, porém, ela estaria redirecionando consultas da Serasa e da ClearSale por esse mesmo canal — desviando o uso de uma autorização restrita a uma única instituição.
O alerta surgiu de uma anomalia comercial. A Unico estranhou um crescimento fora do padrão na demanda atribuída ao BB. Ao questionar o banco, ouviu que não havia aumento equivalente nas operações. Ao mesmo tempo, a procura por seus serviços por parte de outros clientes do setor financeiro começava a recuar — um descompasso que motivou a empresa a investigar.
O que a perícia encontrou
Após contratar uma perícia independente, a Unico afirma ter confirmado suas suspeitas: imagens captadas em operações de outros bancos estariam trafegando pelo canal que deveria ser exclusivo do Banco do Brasil. Em um dos exemplos citados, uma foto facial tirada na agência de um banco — com a logomarca da instituição ao fundo — teria aparecido na base de dados de outra empresa.
A perícia identificou ao menos 1,4 milhão de transações consideradas fraudulentas. Em inquérito, bancos como Inter, BTG e Itaú teriam confirmado que as consultas irregulares partiam da Serasa e da ClearSale, sem que tivessem conhecimento ou participação. A Unico estima que o caso possa envolver dados biométricos de até 22 milhões de brasileiros.
O que diz a Serasa
Em nota, a Serasa Experian afirmou que refuta veementemente a acusação. A empresa destacou que o processo tramita em segredo de justiça e que, por esse motivo, ainda não teve acesso integral aos autos para saber exatamente do que se trata. Reforçou ainda atuar com estrita observância à legislação aplicável e disse que se manifestará no momento oportuno, quando esclarecerá o que for necessário.
Por que o caso importa
Para além da disputa entre as duas empresas, o episódio toca em um ponto sensível da legislação brasileira. Dados biométricos são classificados pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) como dados pessoais sensíveis, sujeitos a exigências reforçadas de coleta, armazenamento e tratamento. Caso as alegações sejam confirmadas pela Justiça, o caso pode abrir discussões relevantes sobre privacidade, concorrência e uma eventual atuação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) — e os titulares dos dados, hoje fora do processo, podem vir a buscar reparação.
Fontes: Valor Econômico (informação antecipada), Folha de S.Paulo, O Tempo e IT Forum. O processo corre em segredo de justiça; as informações refletem a versão da parte acusadora e a manifestação oficial da Serasa Experian disponíveis até a publicação.
